Um artista iluminado

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Veja Rio

Poucas semanas atrás estive em Guarabira, na Paraíba, para a Sétima Feira de Arte Naïf, onde testemunhei uma riqueza de telas de alta qualidade e criatividade. Mas o que mais me emocionou estava a 35 quilômetros dali, na zona rural de Bananeiras, a cidade onde a elite de João Pessoa se refugia nos fins de semana.

Quem me levou até lá foi um amigo, Manoel Onofre Neto, promotor de Justiça de Natal, curador e proprietário de um dos maiores acervos do Rio Grande do Norte. Fomos de carro por uma estrada de terra até a roça. Ao chegar, deparei-me com uma casa de 134 metros quadrados, três quartos – cujas paredes, de dentro e de fora, são inteiramente cobertas de pinturas coloridas: flores, animais, cachoeiras e arte sacra. Nunca vi nada igual.

Parede azul com pinturas de figuras religiosas e rosas vermelhas, incluindo Nossa Senhora Aparecida e São Francisco de Assis. No centro, uma mesa coberta por toalha branca com estatuetas de santos. À esquerda, um sofá bege com almofadas marrons. O teto tem telhas de barro e vigas de madeira expostas

(Fabio Szwarcwald/Divulgação)

O pintor é Matheus Matias, de 31 anos, que também pinta telas e telhas. Surdo e mudo, e com perda gradual de visão, ele carrega uma condição genética rara chamada síndrome de Usher. Matheus vive nessa casa com seus pais – Seu Chico e Dona Irene – e com André, seu irmão mais velho, um agricultor de 34 anos que compartilha da mesma condição genética. André também não escuta, não fala e quase não vê.

Emocionado, fiz um vídeo e postei no Instagram. A repercussão foi imediata, despertando o interesse de colecionadores e da grande imprensa. Um grupo de amigos, do qual faço parte, vem ajudando a família a viabilizar exames de saúde, a comprar novos óculos para os irmãos e a estruturar a comunicação da produção do Matheus.

A família não sabe ler. Os pais se dedicam inteiramente aos dois filhos, cultivando os terrenos que possuem para subsistência. A única renda familiar provém dos desenhos de Matheus. Hoje o artista tenta aprender Libras usando alguns aplicativos no celular. É palmeirense, adora Cristiano Ronaldo e costumava ir à missa com a família. Quando a igreja mudou o horário dos cultos para a noite, os quatro deixaram de ir: no escuro, o pai não se arrisca a andar com os filhos na rua, principalmente com André.

Seu Chico é incansável. Com as costas debilitadas depois de anos trabalhando na roça e na construção civil, dedicou as últimas três décadas a esbarrar em barreiras impensáveis nas áreas da saúde e da educação. Para que seus dois filhos pudessem frequentar um colégio, aprender Libras e usufruir do direito ao transporte escolar, ele peitou autoridades locais, incluindo o Ministério Público, uma promotora de Justiça e delegados. Sem sucesso.

Matheus nunca estudou pintura. Quando tinha três anos, a família morava numa casa com forno a lenha. Com o carvão, ele desenhava nas paredes. Ao crescer, pedia folhas de papel ofício ao pai. No entanto, chegou a um ponto em que não tinham mais condições de comprar. O pai chegou a ir à Secretaria de Educação do município para solicitar o material. Os representantes prometeram que enviariam o material a uma escola próxima, onde ele poderia buscá-lo. Mas isso nunca aconteceu. Sem desistir, seu Chico foi abrindo mão de outras prioridades para conseguir comprar papel ofício e cartolina, um pedido de Matheus para fazer trabalhos maiores.

Ao ganhar pincéis e tintas de uma amiga da família, o menino deslanchou. Seu Chico chegou a apresentar os trabalhos em uma galeria de arte mantida pela Prefeitura de Guarabira. O então prefeito Zenóbio Toscano (falecido durante a pandemia) apreciava arte, e a galeria era mantida por um professor argentino. Impressionados com o talento do jovem, eles convidaram Matheus a pintar na galeria todas as terças-feiras; ali ele dispunha de tintas, telas e pincéis. O pai estava sempre junto.

Mural colorido de uma mulher loira de olhos verdes, chapéu militar preto, blusa rosa, jaqueta preta e calça verde, em frente a edifícios com cúpulas coloridas, como a Catedral de São Basílio, e um cenário de floresta com árvores rosas e amarelas. Um teto de telhas e uma mesa branca com cadeiras de madeira aparecem no canto direito

(Fabio Szwarcwald/Divulgação)

 

O menino também participou de uma exposição coletiva promovida pelo Sesc – o pai chorou ao ver seu filho ganhar o primeiro lugar pelo seu trabalho.

No entanto, o jovem sempre se frustrou ao ver os amigos indo para a escola, e ele, não. Aos 16 anos, durante o que parecia ser uma crise de ansiedade, Matheus apresentou uma pressão arterial tão elevada que levou os pais a percorrer diversos hospitais. Por dias, nada baixava a pressão do jovem. Depois de vários testes, uma cardiologista disse que o coração estava bem. E perguntou por que o menino fixava o olhar no quadro do consultório. O pai explicou que o filho amava pintar. A médica passou a receita certa: pintar as paredes.

Para conhecer seu trabalho, visite o website do Matheus.

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